Gente, eu deveria ter postado isto há muito tempo! Fico enrolando e esqueço que devemos registrar aqueles acontecimentos que nos transformam , mudam nosso ser e forma de pensar! Um amigo meu, que narrou suas aventuras na rota 66, me fez lembrar da importancia disto! Espero que gostem desta experiencia de muita amizade!
Amizades
perigosas
Todos
os dias são mostradas na TV inúmeras notícias de pessoas que se deram muito mal
por confiar demais em outras. Dentre os pecados capitais de quem é “passado a
perna”, nada mais condenável, neste violento século, que convidar estranhos
para dentro da sua casa. Isso é quase uma cilada, como bem traduz o comediante
Bruno Mazzeo. Entretanto, como às vezes o impensável acontece e certezas
existem para ser quebradas, em especial as ditadas pela mídia, registro uma
experiência do tipo “relações perigosas” que proporcionaram um dos melhores
momentos de nossas vidas.
Hospedando
estranhos
No
início do ano de 2003, eu e meu esposo viajamos para Caraívas, uma praia da
Bahia de difícil acesso. Você gasta quase três horas para rodar menos que 100 km
em um ônibus que não pára de pular, devido à buraqueira. Dentro do “baú”, notei
um casalzinho com jeito de alemães que pelo visto não falavam nada de
português. Fazendo um parênteses, sobre minha personalidade, sem modéstia, eu
acho que daria uma ótima ministra de turismo. Quando vejo estrangeiros na mesma
situação, fico matutando , pensando se eles já têm hotel, se sabem o que comer,
onde ir, etc. De fato me preocupo e fico
arrasada que o Brasil tenha tantas belezas, mas seja tão mal explorado e cuidado,
sem se preocupar com o intercambio cultural e é claro, com os dólares, euros e
libras, que essa galera poderia investir aqui. Assim, nesta mais pura intenção,
talvez maculada apenas pelo interesse de falar inglês e conhecer mais sobre o
outro lado do atlântico, logo na descida do ônibus já fui toda oferecida,
perguntar se eles precisavam de ajuda para encontrar hotel. Este foi o primeiro passo para engatarmos uma gostosa
amizade de verão.
Encontramo-nos depois na praia. Combinamos
jantares, fizemos caminhadas radicais para a paria do espelho, meu esposo os
ensinou jogar truco, descemos de bóia no rio, enfim, nos divertimos a valer.
Falei igual uma tagarela, ainda mais quando fiquei sabendo que eram de Londres,
a cidade que mais queria conhecer. Aquele casal simpático estava vivendo uma
aventura. Viajariam por mais ou menos um ano por toda America do Sul e estavam
apenas no meio do trajeto. De acordo com alguns brasileiros que haviam passado
na Europa apenas de excursão, essa ação era feita por pessoas que não se
preocupavam com dinheiro, pobres que aproveitavam o cambio baixo e viviam
apenas com o necessário, uma cultura bem diferente da classe média brasileira.
Achei que o que diziam alguns brasileiros tinha sentido, em especial pelas
simples acomodações que eles ficavam.
Na
despedida, já que ainda tinham um logo caminho a seguir, oferecemos hospedagem
no nosso pequeno apartamento de dois quartos, situado em uma cidade satélite,
“muito interessante” da capital Federal. “Se eles ficam nesses quartos tão simples, não
vão se importar em dormir no nosso apertado apartamento mesmo que seja no
colchão”. Pensamos. Sem grandes entusiasmos, como os britânicos mesmo dizem
“with no fuzz” aceitaram o convite.
Confesso
que duvidei se de fato viriam, mas após o carnaval, fizeram contato, de forma
muito educada, dizendo que gostariam de ir à Brasília, mas que poderiam ficar
mesmo em um hotel caso fosse problema para nós. Tinham intenção de ficar nada
mais que cinco noites, como mesmo havia dito que seria conveniente para nós.
Confirmamos o convite, lembrando apenas que o apartamento era de fato pequeno e
que disporíamos apenas de um colchão, mas que seriam muito bem vindos.
Antes
de contar como foi, queria falar como de fato era nosso apartamento. Pensa em
um quadrado, do tipo, dá um pulo e cai no banheiro, dá outro e cai na cozinha.
Na época nem sequer pensei em não convidá-los por essa questão. Tanto eu como
meu esposo somos de famílias simples, daquelas que iam para a casa do tio que
morava na praia, à meia hora de distância do mar, e que dormiam todo mundo
amontoada em colchão, sofá, etc. Pelo que conheço da minha cultura mesmo, o
brasileiro mesmo, simples, divide o pão, mesmo que seja pouco.
Esse
é o bom lado, mas como uma boa brasileira, que não se ateve à exceção, atrasamos
uns 15 minutos para pegá-los no aeroporto. Imagina a cena. Você é convidado
para ir à casa de um povo que literalmente “nunca viu mais preto”, chega no
aeroporto e não tem ninguém lá! Deve dar um vazio na barriga. Fiquei até com
vergonha quando os vi com um ar meio assustado, ansioso, olhando para todos os
lados. Graças â Deus éramos nós mesmos! Não conseguiram disfarçar a alegria de
nos ver e pela primeira vez vi o entusiasmo apareceu um pouquinho, de verdade.
Apesar de o local ser como descrito, para
nossa alegria, eles pareciam felizes em estar lá. Tinha uma internet no quarto
deles, que era meu escritório, lenta, que eu inclusive tinha que dividir com
eles, mas pelo menos funcionava. Tv a cabo com direito a friends e tudo, mas
calma! Era na sala, pra todos. Meu esposo o levou para jogar bola no serviço e
eu, claro, fui com ela ao shopping. Fomos ao cinema, barzinho, etc. Ainda
conseguimos sair com alguns amigos brasileiros para dançar, mas a maioria não
falava inglês, o que diminuía o interesse do lado de cá.
Parece
que gostaram porque alguns meses depois , quando estavam em Natal, de volta da
Argentina e Peru, convidei-os novamente e, para minha surpresa, aceitaram. Esse
último sentimento não era em decorrência do velho ditado “passa lá em casa”,
sem querer que a pessoa de fato vá, mas pela idéia de que eles estavam
usufruindo de tantos lugares legais e interessantes e mesmo assim pegariam um
ônibus para ir à Brasília, ficar naquele apartamento apertado! Confesso que a
estima foi lá em cima. Pelo visto devíamos até ser legais. Acho que sentiam
falta de um lugar seguro, de relacionar com pessoas da terra, sei lá.
Penso
que os coloquei em alguns apuros. Um dia acho que os assustei, mas sem querer. Estávamos
à mesa e eu disse, em inglês, que tinha uma proposta indecente para fazer. Brasileiro
sabe que isso quer dizer, mais ou menos, “Eu tenho uma coisa de índio para
você, mas usei o mesmo verbo em inglês. Acho que deve ter soado como se fosse
algo mesmo indecoroso, tipo ménage au truis, porque ele ficou todo sério, com
ar grave!!! Aí, ao perceber o erro de comunicação, já fui logo os tranqüilizando
, falando que era apenas se poderiam ir um dia comigo à minha escola, treinar
conversação com meus alunos. Em outro momento, os levei para ir ao jogo do Gama,
um time local, com direito a aulas de civilidade e tudo ao presenciarem os
torcedores despirem os jogadores, em pleno campo. Outro dia fomos a uma
danceteria e pedimos ao DJ para chamá-los para a pista, o que de fato fizeram.
Fora
os vexames, até cômicos, pelo menos para nós, tivemos muitos momentos
agradáveis. As peladas no horário do almoço em companhia do meu esposo
continuaram e, enquanto isso eu e a menina ficávamos tomando sol e conversando.
De “groja”, minha mãe também preparou uma feijoada daquelas. Os levamos ainda
em alguns lugares tops de Brasilia, tipo Libanus e Beer Fass. Tentamos levar
até na igreja, mas não se interessaram muito.
Era muito bem estar com eles porque
eram de fato pessoas interessantes, discretos e reservados até por demais. Porém,
como qualquer ser humano, não tem reserva que resista a um bom papo, regado a
um chopinho para animar. Aí a gente começa, a saber, dos podres, tipo gente
sendo presa por fazer xixi na rua, em Picaddily Circus. Mas este é apenas um
detalhe. O que ficou mesmo foi entender que eram pessoas como a gente, porem
com filosofias de vida diferente, que de fato acrescentem pelo sentido que
representam. Com eles aprendi uma coisa que até hoje levo comigo: Se tem que
fazer algo, faça agora, pois depois pode ser tarde. Assim era a realidade deles.
O trabalho estável, as carreiras profissionais eram delegadas para depois.
Antes que as amarras se consolidassem, importava conhecer o mundo quando ainda
se era jovem com força, saúde, física e mental para apreciar e
viver tal aventura.
Antes
de ir embora, o nosso amigo disse que quando quiséssemos ir a Londres era só
comprar a passagem que nos receberia. Contei isso a alguns conhecidos que, bem céticos, disseram que os estrangeiros eram
sempre assim. Ofereciam mundos e fundos quando estavam aqui, no Brasil, mas tão
logo chegavam no país de origem, tratavam os brasileiros com desprezo. Ainda
mais inglês, que eram conhecidos pela arrogância e pelo nariz empinado. Essa
afirmação não me fez estremecer, mais pela mesquinharia de alguns dos meus,
afinal, jamais viajaria confiando totalmente em alguém e também a amizade e o
tempo passado junto com aquele pessoal era mais importante que qualquer coisa.
Mais
de quatro anos se passaram. Neste ínterim, se trocamos cinco e-mails foram
muitos. Todos muito breves. Como sempre eu escrevia muito e eles pouco, quando
retornavam e quase sempre era o nosso amigo, pensei que o relacionamento ia
ficar apenas nas memórias de Brasília mesmo. Entretanto, ter conhecido aquelas
pessoas , com aquele estilo de vida, trouxe em mim um impacto, como que uma
inquietude no coração no sentido de soltar um pouco as amarras e começar a viver
o que de fato sempre acreditei: um dia de cada vez. Por que a gente acha normal
juntar dinheiro para ter casa, pagar prestações altas para se andar em um bom
carro, mas vê viagens internacionais como artigo de luxo. Percebi que meu
carro, apartamento, emprego eram mais interessantes quando gozados na companhia
de pessoas interessantes, que tinham haver conosco. Assim, muitos de meus
valores começaram a ser substituídos, no sentido de como gastar meu dinheiro e
em que de fato importava investir.
Dessa
feita, comecei a pressionar meu esposo, mineiro convicto, para realizar o sonho
de ir à Europa. Após diversas recusas de sua parte, radicalizei dizendo que
iria com uma amiga e, para evitar injustiças, inclusive depositaria o mesmo
valor gasto com a passagem em sua conta. Nestas horas é bom trabalhar. Após
pensar ele chegou a conclusão que não seria justo ficar aqui trabalhando
enquanto eu me divertia em Londres. Assim, como mesmo prometemos, desde o
início, juntos fomos.
Era
um sonho que se tornava realidade. Comecei a pesquisar na internet, procurando
albergues porque Londres é caro mesmo! Por fim, na semana de comprar a passagem,
mandei o e-mail para meu amigo avisando que iríamos para Londres e que
estávamos procurando um hostel caso não pudesse nos hospedar e que gostaríamos
de nos encontrar com eles. Demorou uns três dias para vir a resposta. Eu,
ansiosa que só, já estava meio que chateada, pelo menos por não ter tido
resposta. Só que a retorno que tive foi bem diferente do esperado.
Culminância
Pra
contar o que aconteceu preciso fazer uma alusão ao que é graça, virtude esta
tão difundida no cristianismo. Eu já tinha uma noção do que era isto, mas
confesso que nunca tinha entendido o real sentido na minha vida quando
dispensado por outras pessoas. Graça é receber o que não se pode pagar, ou
seja, um favor não merecido, que jamais poderá ser retribuído, pelo menos não
em gênero , numero e especialmente grau. Acredito que Deus a todo tempo e a
todo o momento nos dá amostra disso, mas confesso que essa experiência, da
forma que aconteceu, foi um jeito muito especial de Deus me ensinar , e de
mostrar que os seres humanos refletem seu amor, dedicar seu amor e me mostrar
como os seres humanos valem à pena. Normalmente a gente recebe graça, ou seja,
coisas que não trabalhamos por elas ou merecemos nas pequenas coisas: na chuva,
naquele trabalho que conseguimos sem nos esforçar tanto, em um sorteio ou
premio, etc. Mas receber graça que não é comum a todos, principalmente quando
envolve dinheiro e dos outros é uma experiência bem libertadora mesmo. Acredito
que Deus a todo tempo e a todo o momento nos dá amostra disso, mas confesso que
essa experiência, da forma que aconteceu, falou muito alto por envolver pessoas
tão distantes, foi um jeito muito especial de Deus dedicar seu amor e me
mostrar como os seres humanos valem à pena. Também de que as maiores
demonstrações de gratidão e generosidade verdadeira, ou seja, aquela que não
espera nada em troca podem vir por meio das pessoas que menos esperamos. Mas
vamos deixar as aulas de virtudes acompanharem os fatos narrados.
Nosso
amigo retornou o e-mail determinando incisivamente que ficaríamos hospedados em
sua casa. Os breves e-mail agora se estenderam, na hora certa. Pediu informações
sobre a data de chegada, partida e o que gostaríamos de fazer em Londres a fim
de se organizar. Ao lhe relatar que queria conhecer a Irlanda disse que não precisaríamos
de nos preocupar com hotel porque ficaríamos na casa de um de seus amigos em
Dublin. Pra garantir, comprou a passagem, enviando-me um ticket eletrônico, sem
pedir nenhuma garantia de pagamento. Ainda, perguntou se tínhamos interesse em
conhecer o seu filho, na Suécia, já que infelizmente findara o relacionamento
com a moça que estivera em nossa casa. Para que não tivéssemos problema na
imigração, enviou carta de recomendação e cópia do seu passaporte pessoal.
Aterrissamos em Londres no mês de
março. Após a eventual sabatina da imigração, lá estava nosso amigo, sem
atrasar um minutinho, nos esperando, juntamente com sua nova companheira, uma
inglesa muito simpática. Nem sequer imaginávamos o que nos esperava, ou quais
seriam nossos aposentos. O friozinho na barriga ia crescendo, mas já nos
sentíamos mais relaxados.
Enfim, chegamos a um bairro inglês
chamado Chiswick, onde ficava o flat de nosso amigo. Entramos e nos deparamos
com um apartamento muito confortável, espaçoso, com três quartos, com cozinha e
salas conjugadas. Nosso quarto era também grande e confortável, com uma cama de
verdade nos fez sentir super relaxados e muito bem hospedados. De fato não era
o que esperávamos.
Observando
a mobília comecei a abstrair algumas lições. Ali não se via ostentação, mas
apenas o necessário, apesar de um apartamento daquele valer mais do que casas
nos bairros mais nobres de Brasilia. Um sofá, uma cozinha bem montada, já com
máquina de lavar e secadora. O banheiro com uma banheira que usei até cansar, enfim,
o necessário porém com um toque de requinte e bom gosto, sem abrir mão da
comodidade, prazer e principalmente da praticidade. O único objeto que poderia nominar
como supérfluo, decorativo, era um enorme globo terrestre, todo em pedra, impetuoso
e em total concordância com o estilo de vida de nosso amigo anfitrião. Confesso
que até hoje desejo comprar um daqueles! Observei as camas, que eram cobertas
apenas com um delicioso “edredom”. Nada daqueles lençóis como vemos em hotel e
nas casas chiques do Brasil. O piso era todo flutuante de madeira. A
praticidade que vivenciamos me faz pensar no obvio: eram assim porque eram
limpas por eles. A Inglaterra foi um dos
primeiros países a se posicionar veemente contra a escravidão, que não
aconteciam nas terras inglesas, mas nas colônias indianas e africanas. Comecei
a pensar nas empregadas brasileiras, inclusive na minha , que trabalhava a
semana interia para ganhar um salário mínimo. Senti um pouco de vergonha, mas
uma forte convicção que as coisas iam voltar quando voltasse.
Como chegamos de noite fomos jantar
em um restaurante nas proximidades, bem eclético, estilo indiano. Fomos
caminhando, sem medo de ser feliz, passando por parques, igrejinhas e outras
novidades. Nem vimos onde estava a conta, porque nosso amigo já pagara. No
outro dia, tinha um café da manha inglês nos esperando na mesa: lingüiça,
feijão doce, bacon, ovos e torrada. Nosso amigo já foi lembrando: esqueça as
frutas, o pão e o presunto, porque hoje vocês terão um café inglês. Comemos de
bom grado, mas minha barriguinha já estava reclamando, devido o fato das novas
iguarias serem um tanto exóticos. Após o desjejum, fomos ao jardim Kew Gardens,
percorrendo grande parte do trajeto pelo Tamisa, onde novamente não nos deixaram pagar nem pelo
bolo. De tarde não tínhamos ânimo para almoçar, então descansamos e esperamos o
horário para sairmos á noite.
É engraçado como os mitos sobre
estrangeiros vão sendo quebrados. Muita gente sai de sua terra de origem para
morar nesses países, mas creio que sem se misturar com as pessoas que de fato
são nativas. Digo isso pelas conversas que já ouvi na minha terra sobre
estrangeiros, em especial, ingleses. Dizem que são frios e que não são muito
calorosos com a família e amigos. Para ter certeza se esses boatos existem pela
convivência ou por uma impressão não sei, mas o que presenciamos foi bem
diferente. Para começar, recebemos muitas visitas. Amigos que apareciam sem
hora marcada, apenas para nos conhecer. Conheci a mãe da sua noiva, uma senhora
muito bonita e simpática que nos levou presente e tudo. A mãe do meu amigo também
ligou preocupada se tínhamos roupa para agüentar o frio. Na noite de sábado,
dia que iríamos sair, meu amigo chamou seus dois irmãos: um rapaz e uma garota.
A garota nos encontrou no flat e de fato era muito simpática e comunicativa. De
metro mesmo, nos dirigimos para o centro da cidade, perto de Picaddily Circus
para um restaurante turco chamado Osa. Pouco tempo depois, chega seu irmão, um
rapaz também muito bonito e educado. O jantar foi regado a vinho, bacalhau
fresco que por sinal nunca havia comido e muita muita conversa , por sinal bem
humorada também. Sei que não preciso falar, mas jantar fora em Londres é muito,
muito caro. Bebida alcoólica muito mais ainda. Quatro pessoas comendo sanduiche
e bebendo refri pagam pelo menos 200 reais, imagina aquele cardápio! Na hora do
rachide, quem disse que nos deixaram pagar a conta de novo! Queria ajudar pelo
menos com 40 libras, mas fomos impedidos por todos veemente. Fiquei sem jeito.
Afinal, quando saíamos no Brasil, até pipoca de cinema dividimos. Ai, que
vergonha.
Depois
do jantar, o que aconteceu foi bem brasileiro mesmo. O carro do irmão do meu
amigo não cabia todo mundo e eles ainda queriam nos levar em um local bem
especial para termos uma vista de Londres. Aí foi todo mundo se empilhando e
espremendo dentro do carro, gritando, gente abaixada no chão, outros no colo,
uma loucura! Sem falar no medo de ser pego pela polícia, que lá, não alivia
mesmo. Nesta realidade, saímos fazendo um tour e avistando coisas bem famosas
da cidade, como o parlamento inglês e o impotente big bem! Tudo de bom!
Dirigimos-nos
a um prédio chequerésimo chamado OXO tower restaurante. http://www.harveynichols.com/output/Page128.asp.
Fica às margens do Rio Tamisa. Na verdade é uma torre enorme, com vários
prédios, tendo na sua torre, um restaurante e brasserie, muito requintado, de
onde você pode ter uma vista fantástica de Londres. O irmão do meu amigo falou
com o vigia e ele nos permitiu subir, apesar do horário. A noiva do meu amigo
ficou um pouquinho embaraçado porque o negocio era chique mesmo e estávamos
todos simples, de tênis mesmo, mas mesmo assim subiu sem maiores reservas. Como
eu estava de passagem tudo era lucro mesmo. O local parecia cenário de cinema!
Gente muito, muito chique, usando roupas de grifes muito famosas. Não que valorizamos
isso, mas era engraçado perceber-se ali, coisa mesmo de cinema. Parecia que
estávamos em um filme. A vista era fantástica. Dava para ver a catedral de São
Pedro, galerias, entre outras maravilhas construídas por mãos humanas, um
contraste entre o antigo e o que há de mais moderno na arquitetura mundial. No
trajeto de volta, a irmã do meu amigo que confidenciou que quando fez 20 anos
de idade, seu pai a levara lá naquela torre, naquele restaurante e lhe
oferecera uma taxa de champanha, numa clara demonstração de como aquele local
era único e especial, por muitas razões que não apenas o glamour.
Aproveitando
o link, parece que família na Inglaterra é coisa séria. Tivemos ainda a
oportunidade de conhecer seus pais que moravam em um apartamento gigante, com
elevador privativo e tudo. Ofereceram-nos um jantar, com uma salada deliciosa, com
abacate que é objeto de luxo no reio unido, seguida por um delicioso carneiro,
regado a vinho e com o típico chá inglês. Até hoje tenho em mente as palvras de
seu pai, com aquele sutaque inglês estilo Anthony Hopkins falando: “ would you
like a cup of tea. Gostariam de uma xícara de chá. Enquanto apreciávamos o
jantar, podemos ver a beleza que é um pai e um filho conversando, coisa ausente
em nossas famílias pessoais, seja pela morte, seja pelo costume. Ficamos
observando aqueles dois, falando sobre amenidades, filmes, sobre o dia das mães,
entre outras coisas mais. Onde estava a frieza inglesa tão difundida. Uma das
conversas tidas era a surpresa de meu amigo, relatando a seu pai como estávamos
amando o país, como estávamos sendo bem tratados inclusive no metro e em todos
os locais que buscávamos informações. Parecia que até eles desconheciam o
potencial de bondade sentidos por nós.
Como
disse, para eles família é coisa séria. Dias depois, rumávamos para a Suécia,
onde conheceríamos seu filho que lá residia com a mãe. No aeroporto, como coisa
que a gente só vê em novela, nosso amigo nos presenteou com a passagem que
aceitamos de bom grado.
Cristo
nos advertiu que ano julgássemos o próximo. Talvez porque temos uma tendência
de olhar para as atitudes dos outros projetando nossos próprios sentimentos e
realidade pessoais, em especial as ruins. Quando soube da separação de meu
amigo, imaginei que talvez tivesse sido em decorrência do bebê que nascera devido
seu espírito livre e viajante, já que uma criança podia de certa forma ser uma
barreira ao estilo aventureiro. Nada podia ser mais contrario. O que vimos foi
um pai apaixonado, que em semanas alternadas viajava à Suécia para visitar o
filho, o qual amava de forma intensa. Nas nossas conversas nos confidenciou a
dor que era deixar a criança, da necessidade de ajudar a ex parceira a estudar
para que também tivesse mais condições de dar suporte ao filho e da sua própria
mudança de rotina, já que também frequentava uma graduação a fim de melhorar o
salário para poder dar um futuro melhor à criança. Fiquei pensando nas lições
da vida, no que é ser pai, no que é ser mãe e que nem sempre os pais, ao se
separarem das mães, esquecem os filhos. Na verdade, na minha cultura, ainda não
presenciara amor paterno , no caso de uma relação que se findara, tão pungente
, ditado por ações reais e concretas ao invés de palavras vazias.
Os
mimos não acabaram por aí. Nosso vôo para a Inglaterra partia as 6 hs da manha
de modo que não havia transporte a fim de chegarmos tão cedo no aeroporto.
Assim, nosso amigo nos colocou em um hotel, mesmo sobre os nossos protestos
para que não dormíssemos no aeroporto. Ficamos em um hotel muito bonito,
segundo ele o melhor de Gutenberg, de frente para a rodoviária de onde
pegaríamos um ônibus muito cedo para o aeroporto. Dessa historia toda, ainda
fomos para Dublin nos hospedando na casa de seus amigos. Voltamos, viajamos
para outros lugares e confesso que, a idéia de ir embora, me fazia chorar,
sempre.
No
dia de irmos, combinamos que pegaríamos um taxi, já que a bagagem era muita mesmo.
De forma alguma queria estar presente com eles , para que não viesse a fazer
aquele drama, aquele chororô. Por
incrível que pareça, apesar de Londres ser tão cara, tínhamos comprado como
nunca nas lojas de departamento que eram uma pechincha! Sem falar nos
presentes, todos muito significativos, como o galheteiro a pilha, ofertado pela
noiva de meu amigo, devido o fato de eu não saber como usá-lo nas primeiras
refeições, o que causou nela um discreto sorriso.
Essa
viagem me deixou com um ar de graça. Foram diversas as lições, em especial a
quebra da pretensão. De certa forma, achava não existia cultura mais acolhedora
que a minha. Tinha a pretensa idéia que sabia receber bem as pessoas. Na
verdade me vi mesquinha, porque jamais me imaginei presenteando alguém com
passagens, jantares, entre outras coisas.
O
que mais me impressionou foi que meu amigo sabia que não poderíamos pagar,
afinal conhecia nossa realidade bem de perto e mesmo assim, sem interesse
nenhum, agiu de forma tão generosa. Até hoje nunca consegui retribuir. Confesso
que mesmo que faça, saberei que assim o fiz porque já recebi. O que pude ver, pelas
mãos de uma pessoa que dizia ter dificuldade de orar, foi exatamente o que
Jesus ensinou: Quando der uma festa, convide os que não podem te retribuir
porque assim será compensado no céu. Não sei se meu amigo tem consciência do
impacto positivo que essa viagem causou em nós. Talvez nunca possa retribuir,
mas a lição para as próximas pessoas, com certeza, foi aprendida.
Se
você pensa que acabou, estamos agora fazendo as malas para ir à Grécia para o
seu casamento e, de “groja”, fomos convidados a ficar uns dias, na sua casa, em Londres . Quer um conselho, confie mais nos
outros que em si mesmo. Alias, confie primeiro em Deus porque é Ele, por intermédio
de seus ensinamentos, que nos incita a relacionar, confiar e entender que todos
nos ansiamos por estas pequenas coisas.Até porque são estas coisas que aquecem nossa alma, nos dão esperança e alegria de viver.