domingo, 14 de setembro de 2014

Amizades perigosas

Gente, eu deveria ter postado isto há muito tempo! Fico enrolando e esqueço que devemos registrar aqueles acontecimentos que nos transformam , mudam nosso ser e forma de pensar! Um amigo meu, que narrou suas aventuras na rota 66, me fez lembrar da importancia disto! Espero que gostem desta experiencia de muita amizade!



Amizades perigosas

Todos os dias são mostradas na TV inúmeras notícias de pessoas que se deram muito mal por confiar demais em outras. Dentre os pecados capitais de quem é “passado a perna”, nada mais condenável, neste violento século, que convidar estranhos para dentro da sua casa. Isso é quase uma cilada, como bem traduz o comediante Bruno Mazzeo. Entretanto, como às vezes o impensável acontece e certezas existem para ser quebradas, em especial as ditadas pela mídia, registro uma experiência do tipo “relações perigosas” que proporcionaram um dos melhores momentos de nossas vidas.
Hospedando estranhos
No início do ano de 2003, eu e meu esposo viajamos para Caraívas, uma praia da Bahia de difícil acesso. Você gasta quase três horas para rodar menos que 100 km em um ônibus que não pára de pular, devido à buraqueira. Dentro do “baú”, notei um casalzinho com jeito de alemães que pelo visto não falavam nada de português. Fazendo um parênteses, sobre minha personalidade, sem modéstia, eu acho que daria uma ótima ministra de turismo. Quando vejo estrangeiros na mesma situação, fico matutando , pensando se eles já têm hotel, se sabem o que comer, onde ir, etc. De fato me preocupo  e fico arrasada que o Brasil tenha tantas belezas, mas seja tão mal explorado e cuidado, sem se preocupar com o intercambio cultural e é claro, com os dólares, euros e libras, que essa galera poderia investir aqui. Assim, nesta mais pura intenção, talvez maculada apenas pelo interesse de falar inglês e conhecer mais sobre o outro lado do atlântico, logo na descida do ônibus já fui toda oferecida, perguntar se eles precisavam de ajuda para encontrar hotel.  Este foi o primeiro passo para engatarmos uma gostosa amizade de verão.
 Encontramo-nos depois na praia. Combinamos jantares, fizemos caminhadas radicais para a paria do espelho, meu esposo os ensinou jogar truco, descemos de bóia no rio, enfim, nos divertimos a valer. Falei igual uma tagarela, ainda mais quando fiquei sabendo que eram de Londres, a cidade que mais queria conhecer. Aquele casal simpático estava vivendo uma aventura. Viajariam por mais ou menos um ano por toda America do Sul e estavam apenas no meio do trajeto. De acordo com alguns brasileiros que haviam passado na Europa apenas de excursão, essa ação era feita por pessoas que não se preocupavam com dinheiro, pobres que aproveitavam o cambio baixo e viviam apenas com o necessário, uma cultura bem diferente da classe média brasileira. Achei que o que diziam alguns brasileiros tinha sentido, em especial pelas simples acomodações que eles ficavam.
Na despedida, já que ainda tinham um logo caminho a seguir, oferecemos hospedagem no nosso pequeno apartamento de dois quartos, situado em uma cidade satélite, “muito interessante” da capital Federal.  “Se eles ficam nesses quartos tão simples, não vão se importar em dormir no nosso apertado apartamento mesmo que seja no colchão”. Pensamos. Sem grandes entusiasmos, como os britânicos mesmo dizem “with no fuzz” aceitaram o convite.
Confesso que duvidei se de fato viriam, mas após o carnaval, fizeram contato, de forma muito educada, dizendo que gostariam de ir à Brasília, mas que poderiam ficar mesmo em um hotel caso fosse problema para nós. Tinham intenção de ficar nada mais que cinco noites, como mesmo havia dito que seria conveniente para nós. Confirmamos o convite, lembrando apenas que o apartamento era de fato pequeno e que disporíamos apenas de um colchão, mas que seriam muito bem vindos.
Antes de contar como foi, queria falar como de fato era nosso apartamento. Pensa em um quadrado, do tipo, dá um pulo e cai no banheiro, dá outro e cai na cozinha. Na época nem sequer pensei em não convidá-los por essa questão. Tanto eu como meu esposo somos de famílias simples, daquelas que iam para a casa do tio que morava na praia, à meia hora de distância do mar, e que dormiam todo mundo amontoada em colchão, sofá, etc. Pelo que conheço da minha cultura mesmo, o brasileiro mesmo, simples, divide o pão, mesmo que seja pouco.
Esse é o bom lado, mas como uma boa brasileira, que não se ateve à exceção, atrasamos uns 15 minutos para pegá-los no aeroporto. Imagina a cena. Você é convidado para ir à casa de um povo que literalmente “nunca viu mais preto”, chega no aeroporto e não tem ninguém lá! Deve dar um vazio na barriga. Fiquei até com vergonha quando os vi com um ar meio assustado, ansioso, olhando para todos os lados. Graças â Deus éramos nós mesmos! Não conseguiram disfarçar a alegria de nos ver e pela primeira vez vi o entusiasmo apareceu um pouquinho, de verdade.
 Apesar de o local ser como descrito, para nossa alegria, eles pareciam felizes em estar lá. Tinha uma internet no quarto deles, que era meu escritório, lenta, que eu inclusive tinha que dividir com eles, mas pelo menos funcionava. Tv a cabo com direito a friends e tudo, mas calma! Era na sala, pra todos. Meu esposo o levou para jogar bola no serviço e eu, claro, fui com ela ao shopping. Fomos ao cinema, barzinho, etc. Ainda conseguimos sair com alguns amigos brasileiros para dançar, mas a maioria não falava inglês, o que diminuía o interesse do lado de cá.
Parece que gostaram porque alguns meses depois , quando estavam em Natal, de volta da Argentina e Peru, convidei-os novamente e, para minha surpresa, aceitaram. Esse último sentimento não era em decorrência do velho ditado “passa lá em casa”, sem querer que a pessoa de fato vá, mas pela idéia de que eles estavam usufruindo de tantos lugares legais e interessantes e mesmo assim pegariam um ônibus para ir à Brasília, ficar naquele apartamento apertado! Confesso que a estima foi lá em cima. Pelo visto devíamos até ser legais. Acho que sentiam falta de um lugar seguro, de relacionar com pessoas da terra, sei lá.
Penso que os coloquei em alguns apuros. Um dia acho que os assustei, mas sem querer. Estávamos à mesa e eu disse, em inglês, que tinha uma proposta indecente para fazer. Brasileiro sabe que isso quer dizer, mais ou menos, “Eu tenho uma coisa de índio para você, mas usei o mesmo verbo em inglês. Acho que deve ter soado como se fosse algo mesmo indecoroso, tipo ménage au truis, porque ele ficou todo sério, com ar grave!!! Aí, ao perceber o erro de comunicação, já fui logo os tranqüilizando , falando que era apenas se poderiam ir um dia comigo à minha escola, treinar conversação com meus alunos. Em outro momento, os levei para ir ao jogo do Gama, um time local, com direito a aulas de civilidade e tudo ao presenciarem os torcedores despirem os jogadores, em pleno campo. Outro dia fomos a uma danceteria e pedimos ao DJ para chamá-los para a pista, o que de fato fizeram.
Fora os vexames, até cômicos, pelo menos para nós, tivemos muitos momentos agradáveis. As peladas no horário do almoço em companhia do meu esposo continuaram e, enquanto isso eu e a menina ficávamos tomando sol e conversando. De “groja”, minha mãe também preparou uma feijoada daquelas. Os levamos ainda em alguns lugares tops de Brasilia, tipo Libanus e Beer Fass. Tentamos levar até na igreja, mas não se interessaram muito.
Era muito bem estar com eles porque eram de fato pessoas interessantes, discretos e reservados até por demais. Porém, como qualquer ser humano, não tem reserva que resista a um bom papo, regado a um chopinho para animar. Aí a gente começa, a saber, dos podres, tipo gente sendo presa por fazer xixi na rua, em Picaddily Circus. Mas este é apenas um detalhe. O que ficou mesmo foi entender que eram pessoas como a gente, porem com filosofias de vida diferente, que de fato acrescentem pelo sentido que representam. Com eles aprendi uma coisa que até hoje levo comigo: Se tem que fazer algo, faça agora, pois depois pode ser tarde. Assim era a realidade deles. O trabalho estável, as carreiras profissionais eram delegadas para depois. Antes que as amarras se consolidassem, importava conhecer o mundo quando ainda se era jovem com força, saúde, física e mental para apreciar e viver tal aventura.
Antes de ir embora, o nosso amigo disse que quando quiséssemos ir a Londres era só comprar a passagem que nos receberia. Contei isso a alguns conhecidos que,  bem céticos, disseram que os estrangeiros eram sempre assim. Ofereciam mundos e fundos quando estavam aqui, no Brasil, mas tão logo chegavam no país de origem, tratavam os brasileiros com desprezo. Ainda mais inglês, que eram conhecidos pela arrogância e pelo nariz empinado. Essa afirmação não me fez estremecer, mais pela mesquinharia de alguns dos meus, afinal, jamais viajaria confiando totalmente em alguém e também a amizade e o tempo passado junto com aquele pessoal era mais importante que qualquer coisa.
Mais de quatro anos se passaram. Neste ínterim, se trocamos cinco e-mails foram muitos. Todos muito breves. Como sempre eu escrevia muito e eles pouco, quando retornavam e quase sempre era o nosso amigo, pensei que o relacionamento ia ficar apenas nas memórias de Brasília mesmo. Entretanto, ter conhecido aquelas pessoas , com aquele estilo de vida, trouxe em mim um impacto, como que uma inquietude no coração no sentido de soltar um pouco as amarras e começar a viver o que de fato sempre acreditei: um dia de cada vez. Por que a gente acha normal juntar dinheiro para ter casa, pagar prestações altas para se andar em um bom carro, mas vê viagens internacionais como artigo de luxo. Percebi que meu carro, apartamento, emprego eram mais interessantes quando gozados na companhia de pessoas interessantes, que tinham haver conosco. Assim, muitos de meus valores começaram a ser substituídos, no sentido de como gastar meu dinheiro e em que de fato importava investir.
Dessa feita, comecei a pressionar meu esposo, mineiro convicto, para realizar o sonho de ir à Europa. Após diversas recusas de sua parte, radicalizei dizendo que iria com uma amiga e, para evitar injustiças, inclusive depositaria o mesmo valor gasto com a passagem em sua conta. Nestas horas é bom trabalhar. Após pensar ele chegou a conclusão que não seria justo ficar aqui trabalhando enquanto eu me divertia em Londres. Assim, como mesmo prometemos, desde o início, juntos fomos.
Era um sonho que se tornava realidade. Comecei a pesquisar na internet, procurando albergues porque Londres é caro mesmo! Por fim, na semana de comprar a passagem, mandei o e-mail para meu amigo avisando que iríamos para Londres e que estávamos procurando um hostel caso não pudesse nos hospedar e que gostaríamos de nos encontrar com eles. Demorou uns três dias para vir a resposta. Eu, ansiosa que só, já estava meio que chateada, pelo menos por não ter tido resposta. Só que a retorno que tive foi bem diferente do esperado.
Culminância
Pra contar o que aconteceu preciso fazer uma alusão ao que é graça, virtude esta tão difundida no cristianismo. Eu já tinha uma noção do que era isto, mas confesso que nunca tinha entendido o real sentido na minha vida quando dispensado por outras pessoas. Graça é receber o que não se pode pagar, ou seja, um favor não merecido, que jamais poderá ser retribuído, pelo menos não em gênero , numero e especialmente grau. Acredito que Deus a todo tempo e a todo o momento nos dá amostra disso, mas confesso que essa experiência, da forma que aconteceu, foi um jeito muito especial de Deus me ensinar , e de mostrar que os seres humanos refletem seu amor, dedicar seu amor e me mostrar como os seres humanos valem à pena. Normalmente a gente recebe graça, ou seja, coisas que não trabalhamos por elas ou merecemos nas pequenas coisas: na chuva, naquele trabalho que conseguimos sem nos esforçar tanto, em um sorteio ou premio, etc. Mas receber graça que não é comum a todos, principalmente quando envolve dinheiro e dos outros é uma experiência bem libertadora mesmo. Acredito que Deus a todo tempo e a todo o momento nos dá amostra disso, mas confesso que essa experiência, da forma que aconteceu, falou muito alto por envolver pessoas tão distantes, foi um jeito muito especial de Deus dedicar seu amor e me mostrar como os seres humanos valem à pena. Também de que as maiores demonstrações de gratidão e generosidade verdadeira, ou seja, aquela que não espera nada em troca podem vir por meio das pessoas que menos esperamos. Mas vamos deixar as aulas de virtudes acompanharem os fatos narrados. 
Nosso amigo retornou o e-mail determinando incisivamente que ficaríamos hospedados em sua casa. Os breves e-mail agora se estenderam, na hora certa. Pediu informações sobre a data de chegada, partida e o que gostaríamos de fazer em Londres a fim de se organizar. Ao lhe relatar que queria conhecer a Irlanda disse que não precisaríamos de nos preocupar com hotel porque ficaríamos na casa de um de seus amigos em Dublin. Pra garantir, comprou a passagem, enviando-me um ticket eletrônico, sem pedir nenhuma garantia de pagamento. Ainda, perguntou se tínhamos interesse em conhecer o seu filho, na Suécia, já que infelizmente findara o relacionamento com a moça que estivera em nossa casa. Para que não tivéssemos problema na imigração, enviou carta de recomendação e cópia do seu passaporte pessoal.
            Aterrissamos em Londres no mês de março. Após a eventual sabatina da imigração, lá estava nosso amigo, sem atrasar um minutinho, nos esperando, juntamente com sua nova companheira, uma inglesa muito simpática. Nem sequer imaginávamos o que nos esperava, ou quais seriam nossos aposentos. O friozinho na barriga ia crescendo, mas já nos sentíamos mais relaxados.
            Enfim, chegamos a um bairro inglês chamado Chiswick, onde ficava o flat de nosso amigo. Entramos e nos deparamos com um apartamento muito confortável, espaçoso, com três quartos, com cozinha e salas conjugadas. Nosso quarto era também grande e confortável, com uma cama de verdade nos fez sentir super relaxados e muito bem hospedados. De fato não era o que esperávamos.
Observando a mobília comecei a abstrair algumas lições. Ali não se via ostentação, mas apenas o necessário, apesar de um apartamento daquele valer mais do que casas nos bairros mais nobres de Brasilia. Um sofá, uma cozinha bem montada, já com máquina de lavar e secadora. O banheiro com uma banheira que usei até cansar, enfim, o necessário porém com um toque de requinte e bom gosto, sem abrir mão da comodidade, prazer e principalmente da praticidade. O único objeto que poderia nominar como supérfluo, decorativo, era um enorme globo terrestre, todo em pedra, impetuoso e em total concordância com o estilo de vida de nosso amigo anfitrião. Confesso que até hoje desejo comprar um daqueles! Observei as camas, que eram cobertas apenas com um delicioso “edredom”. Nada daqueles lençóis como vemos em hotel e nas casas chiques do Brasil. O piso era todo flutuante de madeira. A praticidade que vivenciamos me faz pensar no obvio: eram assim porque eram limpas por eles.  A Inglaterra foi um dos primeiros países a se posicionar veemente contra a escravidão, que não aconteciam nas terras inglesas, mas nas colônias indianas e africanas. Comecei a pensar nas empregadas brasileiras, inclusive na minha , que trabalhava a semana interia para ganhar um salário mínimo. Senti um pouco de vergonha, mas uma forte convicção que as coisas iam voltar quando voltasse.
            Como chegamos de noite fomos jantar em um restaurante nas proximidades, bem eclético, estilo indiano. Fomos caminhando, sem medo de ser feliz, passando por parques, igrejinhas e outras novidades. Nem vimos onde estava a conta, porque nosso amigo já pagara. No outro dia, tinha um café da manha inglês nos esperando na mesa: lingüiça, feijão doce, bacon, ovos e torrada. Nosso amigo já foi lembrando: esqueça as frutas, o pão e o presunto, porque hoje vocês terão um café inglês. Comemos de bom grado, mas minha barriguinha já estava reclamando, devido o fato das novas iguarias serem um tanto exóticos. Após o desjejum, fomos ao jardim Kew Gardens, percorrendo grande parte do trajeto pelo Tamisa,  onde novamente não nos deixaram pagar nem pelo bolo. De tarde não tínhamos ânimo para almoçar, então descansamos e esperamos o horário para sairmos á noite.
            É engraçado como os mitos sobre estrangeiros vão sendo quebrados. Muita gente sai de sua terra de origem para morar nesses países, mas creio que sem se misturar com as pessoas que de fato são nativas. Digo isso pelas conversas que já ouvi na minha terra sobre estrangeiros, em especial, ingleses. Dizem que são frios e que não são muito calorosos com a família e amigos. Para ter certeza se esses boatos existem pela convivência ou por uma impressão não sei, mas o que presenciamos foi bem diferente. Para começar, recebemos muitas visitas. Amigos que apareciam sem hora marcada, apenas para nos conhecer. Conheci a mãe da sua noiva, uma senhora muito bonita e simpática que nos levou presente e tudo. A mãe do meu amigo também ligou preocupada se tínhamos roupa para agüentar o frio. Na noite de sábado, dia que iríamos sair, meu amigo chamou seus dois irmãos: um rapaz e uma garota. A garota nos encontrou no flat e de fato era muito simpática e comunicativa. De metro mesmo, nos dirigimos para o centro da cidade, perto de Picaddily Circus para um restaurante turco chamado Osa. Pouco tempo depois, chega seu irmão, um rapaz também muito bonito e educado. O jantar foi regado a vinho, bacalhau fresco que por sinal nunca havia comido e muita muita conversa , por sinal bem humorada também. Sei que não preciso falar, mas jantar fora em Londres é muito, muito caro. Bebida alcoólica muito mais ainda. Quatro pessoas comendo sanduiche e bebendo refri pagam pelo menos 200 reais, imagina aquele cardápio! Na hora do rachide, quem disse que nos deixaram pagar a conta de novo! Queria ajudar pelo menos com 40 libras, mas fomos impedidos por todos veemente. Fiquei sem jeito. Afinal, quando saíamos no Brasil, até pipoca de cinema dividimos. Ai, que vergonha.
Depois do jantar, o que aconteceu foi bem brasileiro mesmo. O carro do irmão do meu amigo não cabia todo mundo e eles ainda queriam nos levar em um local bem especial para termos uma vista de Londres. Aí foi todo mundo se empilhando e espremendo dentro do carro, gritando, gente abaixada no chão, outros no colo, uma loucura! Sem falar no medo de ser pego pela polícia, que lá, não alivia mesmo. Nesta realidade, saímos fazendo um tour e avistando coisas bem famosas da cidade, como o parlamento inglês e o impotente big bem! Tudo de bom!
Dirigimos-nos a um prédio chequerésimo chamado OXO tower restaurante. http://www.harveynichols.com/output/Page128.asp. Fica às margens do Rio Tamisa. Na verdade é uma torre enorme, com vários prédios, tendo na sua torre, um restaurante e brasserie, muito requintado, de onde você pode ter uma vista fantástica de Londres. O irmão do meu amigo falou com o vigia e ele nos permitiu subir, apesar do horário. A noiva do meu amigo ficou um pouquinho embaraçado porque o negocio era chique mesmo e estávamos todos simples, de tênis mesmo, mas mesmo assim subiu sem maiores reservas. Como eu estava de passagem tudo era lucro mesmo. O local parecia cenário de cinema! Gente muito, muito chique, usando roupas de grifes muito famosas. Não que valorizamos isso, mas era engraçado perceber-se ali, coisa mesmo de cinema. Parecia que estávamos em um filme. A vista era fantástica. Dava para ver a catedral de São Pedro, galerias, entre outras maravilhas construídas por mãos humanas, um contraste entre o antigo e o que há de mais moderno na arquitetura mundial. No trajeto de volta, a irmã do meu amigo que confidenciou que quando fez 20 anos de idade, seu pai a levara lá naquela torre, naquele restaurante e lhe oferecera uma taxa de champanha, numa clara demonstração de como aquele local era único e especial, por muitas razões que não apenas o glamour.
Aproveitando o link, parece que família na Inglaterra é coisa séria. Tivemos ainda a oportunidade de conhecer seus pais que moravam em um apartamento gigante, com elevador privativo e tudo. Ofereceram-nos um jantar, com uma salada deliciosa, com abacate que é objeto de luxo no reio unido, seguida por um delicioso carneiro, regado a vinho e com o típico chá inglês. Até hoje tenho em mente as palvras de seu pai, com aquele sutaque inglês estilo Anthony Hopkins falando: “ would you like a cup of tea. Gostariam de uma xícara de chá. Enquanto apreciávamos o jantar, podemos ver a beleza que é um pai e um filho conversando, coisa ausente em nossas famílias pessoais, seja pela morte, seja pelo costume. Ficamos observando aqueles dois, falando sobre amenidades, filmes, sobre o dia das mães, entre outras coisas mais. Onde estava a frieza inglesa tão difundida. Uma das conversas tidas era a surpresa de meu amigo, relatando a seu pai como estávamos amando o país, como estávamos sendo bem tratados inclusive no metro e em todos os locais que buscávamos informações. Parecia que até eles desconheciam o potencial de bondade sentidos por nós.  
Como disse, para eles família é coisa séria. Dias depois, rumávamos para a Suécia, onde conheceríamos seu filho que lá residia com a mãe. No aeroporto, como coisa que a gente só vê em novela, nosso amigo nos presenteou com a passagem que aceitamos de bom grado.
Cristo nos advertiu que ano julgássemos o próximo. Talvez porque temos uma tendência de olhar para as atitudes dos outros projetando nossos próprios sentimentos e realidade pessoais, em especial as ruins. Quando soube da separação de meu amigo, imaginei que talvez tivesse sido em decorrência do bebê que nascera devido seu espírito livre e viajante, já que uma criança podia de certa forma ser uma barreira ao estilo aventureiro. Nada podia ser mais contrario. O que vimos foi um pai apaixonado, que em semanas alternadas viajava à Suécia para visitar o filho, o qual amava de forma intensa. Nas nossas conversas nos confidenciou a dor que era deixar a criança, da necessidade de ajudar a ex parceira a estudar para que também tivesse mais condições de dar suporte ao filho e da sua própria mudança de rotina, já que também frequentava uma graduação a fim de melhorar o salário para poder dar um futuro melhor à criança. Fiquei pensando nas lições da vida, no que é ser pai, no que é ser mãe e que nem sempre os pais, ao se separarem das mães, esquecem os filhos. Na verdade, na minha cultura, ainda não presenciara amor paterno , no caso de uma relação que se findara, tão pungente , ditado por ações reais e concretas ao invés de palavras vazias. 
Os mimos não acabaram por aí. Nosso vôo para a Inglaterra partia as 6 hs da manha de modo que não havia transporte a fim de chegarmos tão cedo no aeroporto. Assim, nosso amigo nos colocou em um hotel, mesmo sobre os nossos protestos para que não dormíssemos no aeroporto. Ficamos em um hotel muito bonito, segundo ele o melhor de Gutenberg, de frente para a rodoviária de onde pegaríamos um ônibus muito cedo para o aeroporto. Dessa historia toda, ainda fomos para Dublin nos hospedando na casa de seus amigos. Voltamos, viajamos para outros lugares e confesso que, a idéia de ir embora, me fazia chorar, sempre.
No dia de irmos, combinamos que pegaríamos um taxi, já que a bagagem era muita mesmo. De forma alguma queria estar presente com eles , para que não viesse a fazer aquele drama, aquele chororô.  Por incrível que pareça, apesar de Londres ser tão cara, tínhamos comprado como nunca nas lojas de departamento que eram uma pechincha! Sem falar nos presentes, todos muito significativos, como o galheteiro a pilha, ofertado pela noiva de meu amigo, devido o fato de eu não saber como usá-lo nas primeiras refeições, o que causou nela um discreto sorriso.
Essa viagem me deixou com um ar de graça. Foram diversas as lições, em especial a quebra da pretensão. De certa forma, achava não existia cultura mais acolhedora que a minha. Tinha a pretensa idéia que sabia receber bem as pessoas. Na verdade me vi mesquinha, porque jamais me imaginei presenteando alguém com passagens, jantares, entre outras coisas.
O que mais me impressionou foi que meu amigo sabia que não poderíamos pagar, afinal conhecia nossa realidade bem de perto e mesmo assim, sem interesse nenhum, agiu de forma tão generosa. Até hoje nunca consegui retribuir. Confesso que mesmo que faça, saberei que assim o fiz porque já recebi. O que pude ver, pelas mãos de uma pessoa que dizia ter dificuldade de orar, foi exatamente o que Jesus ensinou: Quando der uma festa, convide os que não podem te retribuir porque assim será compensado no céu. Não sei se meu amigo tem consciência do impacto positivo que essa viagem causou em nós. Talvez nunca possa retribuir, mas a lição para as próximas pessoas, com certeza, foi aprendida.
Se você pensa que acabou, estamos agora fazendo as malas para ir à Grécia para o seu casamento e, de “groja”, fomos convidados a ficar uns dias, na sua casa,  em Londres . Quer um conselho, confie mais nos outros que em si mesmo. Alias, confie primeiro em Deus porque é Ele, por intermédio de seus ensinamentos, que nos incita a relacionar, confiar e entender que todos nos ansiamos por estas pequenas coisas.Até porque são estas coisas que aquecem nossa alma, nos dão esperança e alegria de viver.















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